Livro Primeiro mataram meu pai

O livro “Primeiro mataram meu pai” (First They Killed My Father) foi lançado pela editora Harper Collins Brasil em 2000, o livro é uma autobiografia de Loung Ung. A obra inspirou o filme com o mesmo nome, lançado em 2017 e dirigido pela atriz Angelina Jolie. No livro a autora Loung Ung retrata sua dura trajetória para espacar do regime do ditador Pol Pot, implementado no Camboja. No inicio do livro a autora retrata que teve uma vida privilegiada até o inicio de sua infância, era de classe media e filha de um oficial do governo do Camboja, o que facilitava um bom convívio entre ela e seus familiares. Porém, Loung nos mostra que em abril de 1975 tudo mudou, pois foi instaurado o regime do Khmer Vermelho, o qual massacraria milhares de pessoas, matando boa parte da população cambojana.

O Khemer Vermelho é o nome dos seguidores do Partido Comunista da Kampuchea, esse regime foi implantado no Camboja e fundaria o que eles chamavam de “Camboja Democrático”. A principal ideia desse regime era que a sociedade urbana era corrompida e deveria ser substituída por uma mais pura, essa mudança daria origem ao “Novo Povo”, que era originado principalmente da população rural, com o intuito de criar uma sociedade cambojana mais forte e dinâmica. Durante os anos de 1975 e 1979 o Khmer Vermelho  foi o regime do Camboja, liderado por Pol Pot, este regime é lembrado por seus massacres, que resultaram em um genocídio do povo cambojano, pois sias tentativas de reforma agraria levaram varias pessoas à fome enquanto sua insistência na autossuficiência, até mesmo nos serviços médicos, levou à morte de milhares de pessoas em consequência de doenças tratáveis, com mortes atingindo cerca de 20% da população da época.

 Tal programa incluía a evacuação total das cidades, formação de fazendas coletivas, onde era imposto o trabalho forçado. Todos ali morriam extenuados pelas duras condições e alimentação quase inexistente. Religiosos, intelectuais, professores, qualquer pessoa que dominasse uma arte ou conhecimento era sumariamente executada. Os adultos eram considerados “envenenados pelo capitalismo”, assim, a prioridade do regime eram as crianças, que eram doutrinadas nos princípios comunistas, e recebiam papéis de liderança em torturas e execuções. Livros eram queimados, escolas, hospitais, fábricas, bancos e até a moeda foram extintos. Todos os de origem não cambojana eram perseguidos e executados. Um dos lemas do Khmer Vermelho, e que marcaria a sua passagem pelo poder, era: “Não existe beneficio em mantê-lo vivo. Não existe prejuízo em destruí-lo”.

No decorrer do livro, Loung fala que quando o exercito invadiu a cidade ela e sua família passaram a correr sérios riscos de vida, visto que, seu pai era agente do governo e um dos principais alvos do regime era eliminar todos que fossem vinculados ao antigo governo. A autora revela também que por um tempo eles conseguiram disfarçar a ex-profissão do pai, fingiam que eram camponeses e, por um tempo conseguiram viver unidos, mesmo sendo obrigados a fazerem trabalhos forçados em fazendas do Khmer Vermelho, porém, depois de um tempo a profissão real do seu pai foi descoberta.  Diante disso, como o próprio titulo do livro diz, o pai de Loung Ung foi assassinado, mas a família só tomou conhecimento disso anos depois, pois inicialmente disseram para eles que o pai de Loung ia apenas trabalhar por um tempo em outra fazenda. No livro Loung relata que viu sua mãe ficar sentada, triste, com esperança de um retorno do marido, enquanto negava a possibilidade de sua morte. Diante de tantas atrocidades que estavam ocorrendo com a família, a mãe de Loung, em uma tentativa desesperada de salvar a vida dos seus filhos, mandou Loung e dois de seus irmãos (eram sete ao total) saírem em busca de um campo de órfãos, sem revelar sua real filiação, explicando aos pequenos que está seria a única chance de sobrevivência.

Diante de todos esses acontecimentos narrados, Loung precisou fugir e acabou em um campo de formação de crianças-soldados, lá ela foi treinada para se tornar um dos membros do exercito comunista. A autora relata que seus irmãos não ficaram no mesmo local que ela, acabaram indo para um campo de trabalhos forçados, onde viviam em situações precárias de moradia, alimentação e maus tratos. Porém, apesar de todo sofrimento enfrentado por Loung e sua família eles não desistiram de ter uma vida mais digna e feliz, e foi em busca desses sentimentos que Loung aos dez anos conseguiu fugir com seus irmãos para a Tailandia, posteriormente a isso foram morar nos Estados Unidos. Em vários momentos no livro Loung retrata a forma cruel de tratamento que eles recebiam, mostrando que a vida em que levavam não era digna de um ser humano, um desses relatos foi este.  

“Apesar de pol pot dizer que somos todos iguais no Camboja democrático, nós não o somos. Nós vivemos e somos tratados como escravos, no nosso jardim, o angkar fornece-nos sementes e nós podemos plantar qualquer coisa que escolhemos, mas toda e qualquer coisa que cresce não nos pertence, pertence à comunidade. As pessoas da base comem os frutos e os vegetais dos jardins comunitários, mas as novas pessoas são punidas se fizerem o mesmo, durante a estação mais dura as colheitas dos campos são entregues ao chefe da vila, então ele raciona a comida entre as cinquenta famílias. Como sempre, não importa quão abundante tenham sido as colheitas, nunca há comida suficiente para o pessoal novo. Roubar comida é visto como um crime hediondo, se pego, os infratores arriscam terem os seus dedos cortados em púbico ou então serem forçados a cultivar vegetais numa área perto de identificados campos minados. Os soldados do Khmer Vermelho plantaram essas minas terrestres para proteger as províncias que eles tomaram do exército de Lon Nol, durante a revolução. O Khmer Vermelho plantou uma infinidade de minas terrestres e não desenhou nenhum mapa com a localização das mesmas. Por isso, agora muitas pessoas são feridas ou mortas atravessando essas área, as pessoas que trabalham nessas áreas não voltam para a vila, se uma pessoa pisa numa mina terrestre e perde um braço ou uma perna, ela passa a ser de nenhum valor para o Angkar. os soldados daí atiram nela para terminar o trabalho. na nova sociedade agrária pura não há lugar para pessoas com deficiência”.

Essa breve análise do livro nos faz perceber que está história é, sobretudo, uma historia de sobrevivência e superação, pois poucas famílias da década de 70 puderam sobreviver no regime implantado no Camboja. A autora declara isso em um dos momentos do livro, “Esta é uma história de sobrevivência: a minha e a de minha família. Embora estes acontecimentos façam parte da minha experiência de vida, minha história está refletida na vida de milhões de cambojanos”. Depois das diversas atrocidades que testemunhou, Loung se tornou escritora e ativista, fazendo campanhas com a ONG Campaign for a Landmine-Free World, que protesta contra o uso de minas terrestres no mundo.  

Diante do exposto, podemos analisar o livro sobre uma perspectiva da luz dos direitos humanos, visando destacar quais direitos foram negligenciados pelo governo em questão. Diante disso, analisando o contexto histórico do qual o acontecimento narrado por Loung faz parte, percebemos que durante os anos de 1975 até o ano de 1979, vários direitos fundamentais foram retirados dos cambojanos, visto que, o regime politico da época não primava em ter uma sociedade digna e igualitária, mas sim, em ter uma sociedade cujos valores e preceitos fossem aquilo que o regime queira, não se preocupando com o bem estar da sociedade, mas sim em atingir os seus ideais políticos. Com a análise do livro, percebemos que o regime Khmer Vermelho foi um dos vários massacres mundiais, porém, percebemos a pouca importância que o ensino historiográfico dá para ele, visto que, muitas pessoas da atualidade não sabem nem da existência desse regime, o que nos faz perceber um preconceito sobre a raça cambojana, tratando ela como inferior e, não dando o respeito e a devida importância para todos os sofrimentos e mortes ocorridos durante esse período. Portanto, percebemos que os direitos humanos não foram respeitados durante a época em questão, visto que, ocorreram diversas mortes cruéis devido a um governo ditador, que não primava pela igualdade. Percebemos então que, uma das principais mensagens que o livro nos traz é de que devemos dar maior importância para os regimes autoritários, pois esses regimes massacram sociedades, fazendo com que as pessoas não tenham um mínimo de dignidade humana, esse acontecimento nos faz refletir também sobre o quão é importante continuarmos na luta para um mundo mais igualitário e com uma igualdade de direitos, buscando assim uma vida digna para todos, principalmente os grupos minoritários, que muitas vezes são massacrados por imposições sociais os governamentais.    

Referências:

UNG. LOUNG. Primeiro mataram meu pai. Hasper Collins. 2000

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