Mágico de Oz – Racionais Mc’s

Aquele moleque, sobrevive como manda o dia a dia
Tá na correria, como vive a maioria
Preto desde nascença escuro de sol
Eu tô pra ver ali igual no futebol
Sair um dia das ruas é a meta final
Viver decente, sem ter na mente o mal
Tem o instinto, que a liberdade deu
Tem a malícia, que cada esquina deu
Conhece puta, traficante ladrão
Toda raça, uma par de alucinado e nunca embaço
Confia nele mais do que na polícia
Quem confia em polícia, eu não sou louco
A noite chega, e o frio também
Sem demora e a pedra
O consumo aumenta a cada hora
Pra aquecer ou pra esquecer
Viciar, deve ser pra se adormecer
Pra sonhar, viajar na paranoiana escuridão
Um poço fundo de lama, mais um irmão
Não quer crescer, ser fugitivo do passado
Envergonhar-se aos 25 ter chegado
Queria que deus ouvisse a minha voz
E transformasse aqui no mundo mágico de oz

(…)

A música nos confronta com a realidade de uma infância desenvolvida no meio do tráfico. O primeiro contato da criança com o “mundo real”, deveria ser em com sua família, tendo um ambiente seguro para desenvolver seus sonhos. Porém, podemos perceber que essa realidade existe apenas para uma parcela da população, no dia a dia do tráfico, crianças são inseridas por consequência, por viverem naquele meio e almejarem um dia estar envolvidas no tráfico também. Os traficantes são os grandes empresários, médicos, juízes, eles ocupam o papel das profissões nobres que muitas crianças e adolescentes almejam.

Nós, que não entendemos o funcionamento da engrenagem, exigimos justiça por parte dos nossos juízes, que os policiais reajam para que possamos “viver uma vida em paz”. Mas não refletimos o que está acontecendo nos vasos capilares da nossa sociedade, pessoas estão na comunidade, morrendo por falta de esperança, estão sendo sustentadas e abastecidas por um sistema de tráfico, estão chorando pelo filho que foi baleado, pelo irmão que morreu de overdose, pelo sonho que não pode ser sonhado.

As músicas da banda Racionais Mc’s, nos levam a sair da zona de conforto, limitante e egoísta e expande nossa visão para um novo horizonte. Um horizonte real, que nos incomoda a tal ponto que, se torna melhor ignorar e fingir que nada está acontecendo, para que a consciência não acuse enquanto reclamamos do assalto ao filho do vizinho, e desejarmos a morte dos assaltantes, ao dizer que “merece morrer”.

Que possamos refletir nessa letra, na motivação de quem a escreveu, a mensagem que ele gostaria de passar ao expressar seus sentimentos.

Vitória Lima Lins Cavalcanti

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