- Histórico sobre o filme: Moonlight
Este trabalho tem o escopo de analisar o
filme, Moonlight, sobre a perspectiva dos direitos humanos nas fases na vida,
como infância, adolescência e fase adulta, ambos entrelaçados com a realidade
apresentada pela obra cinematográfica, dando aso à discussões que rodeiam nosso
cotidiano e perfazem uma vida truculenta, com as mais variáveis maneiras de
isolamento de classes vulneráveis a sociedade.
Em primeira vista, faz-se necessário
uma explanação sobre o que trata a obra, pois trata-se um drama estadunidense,
desenvolvido em 2016 e dirigido por Barry Jenkins e escrito por Jenkins e
Tarell Alvin McCraney, baseado na peça inédita In Moonlight Black Boys Look Blue de McCraney[1]. A produção é composta por Trevante Rhodes,
André Holland, Janelle Monáe, Ashton Sanders, Jharrel Jerome, Naomie Harris e
Mahershala Ali, onde narra as etapas da vida de Chiron, o protagonista do
drama, retratando as dificuldades que ele enfrenta no reconhecimento da sua
própria sexualidade e na busca do autoconhecimento, bem como os abusos físicos
e emocionais que lhe são bombardeados ao longo da sua trajetória. Foi filmado
em Miami, na Flórida, em 2015, onde estreou no Festival de Cinema de Telluride
em 2 de setembro de 2016. Distribuído pela A24, o filme foi lançado nos Estados
Unidos em 21 de outubro de 2016[2], onde foi arrecado cerca de 28 milhões de
dólares em todo o mundo.
O filme também se tornou o primeiro
longa-metragem com um elenco todo de negros, o primeiro filme de temática LGBT
e o segundo filme de menor bilheteria americana (atrás de The Hurt Locket) a ganhar o prêmio de Melhor Filme. A editora do
filme, Joi McMillon, tornou-se a primeira mulher negra a ser nomeada para um Oscar
de edição (juntamente com o coeditor Nat Sanders) e Ali se tornou o primeiro
muçulmano a ganhar um Oscar de atuação.[3][4]
Método
Portanto, por uma questão didática e hermenêutica,
decidimos compreender o longa-metragem de maneiro que o próprio filme fez,
separando as épocas em que o personagem principal vive, após concluiremos com o
entrelaçamento da obra com as perspectivas dos Direitos Humanos, intrigando
nosso leitor a refletir sobre a existência de tais formas de segregação e
inferência do próprio corpo social onde o mesmo é inserido face a busca do
autoconhecimento, bem como numa análise mais específico sobre a perspectiva de
infância, família e sexualidade.
Enredo
- Little
Em prima face, escutamos do filme a seguinte
frase “Every nigger is a star”, criada
em 2015 por Boris Gardiner, artista negro, que astuciosamente usa tal falácia
para inflamar a autoestima da população negra. Todavia, o filme inicia com um
menino, negro, correndo de colegas do colégio, num típico meio social onde se
predomina a prática de bullying, com
o desenrolar do filme, numa tentativa de inserir o espectador ao meio social em
que o personagem vive, de maneira intrigante, a própria comunidade se dirige
uns aos outros de maneira pejorativa, chamando uns aos outros de “nigger”, num sentimento inconsciente de
se tratar uns aos outros como inferiores ou como pessoas taxadas daquilo.
Ao avançar, o drama nos faz refletir
o porquê do personagem ser tão perseguido pelos seus colegas, e o mesmo
apresenta um forte bloqueio emocional com as pessoas, não conseguindo fazer
amizades como qualquer outra pessoa, não apresentando o mesmo gosto dos outros
garotos, numa verdadeira batalha para descobrir-se quem é.
Mais
afrente, o vídeo nos mostra outra dificuldade que aquela criança vem sofrendo,
qual seja a própria família, formada só por sua mãe, usuária de drogas e
prostituta, ver-se que existe um resquício de estereotipagem da mãe solteira
sobrecarregada do trabalho que usa drogas com válvula de escape que sempre
esconde do menino o motivo pelo qual é perseguido por outros, criando barreiras
entre o autoconhecimento de Chiron e a sexualidade, montando uma verdadeira
censura desse tema para com a criança. Portanto, o filme mostra como é a vida
de um menino gay que vive na periferia da costa sudoeste dos Estados Unidos,
explanando as suas descobertas sexuais, relações com gangues na região, drogas
e família.
- Chiron
Passam-se dez anos, agora deparamos com
Chiron adolescente, sofrendo ainda mais as amarguras do bullying, onde o mesmo tenta se esconder de um colega de classe,
que sempre o atormenta, para se refugiar o mesmo procura uma amiga, Teresa,
onde lá temos que o garoto não sofre tanta imposição, já que em um determinado
momento do filme, ainda em sua infância, o autor pergunta para os anfitriões da
casa o que é ser “marica” ou “bicha”, onde por surpreendente temos que em vez
do hospedeiro, apesar de ser um chefe do tráfico, deixa que o garoto descubra
sozinho, e o encoraja a estar pronto quando descobrir, um verdadeiro momento de
afeto e sensibilidade. Após, em uma cena, sui
generis, o protagonista encontra-se
com um amigo na praia, onde os dois começam a desabafar sobre a vida, porém os
mesmos afloram-se uns aos outros, dando lugar um sentido, que até o momento é
enterrado pelo meio social, onde seu amigo, Kevin, o masturba, fazendo com que
o adolescente Chiron identifique-se com aquela relação. Após, temos um embate
sentimentalista onde o mesmo amigo que está na noite anterior deflorando seus
sentimentos intrínsecos, é compelido pela sociedade a realizar um trote em seu
amigo Chiron, onde se um lado temos o seu sentimento, e o outro temos a grande
massa da sociedade que o obriga a reprimir as coisas intituladas como errado ou
como inferior.
iii.
Black
Avança-se mais dez anos na vida de Chiron, sendo este um
grande chefe do tráfico, com um físico diferente, musculoso, já que por ocupar
um cargo alto na hierarquia posta na sociedade em que vive, tem de parecer com
uma postura mais séria e forte. Sua mãe encontra-se em uma casa de tratamento
onde ela liga constantemente para o filho ir visita-la, quando ele decide ir,
Chiron desculpa-se com sua mãe, pois não teve empatia com ela, o que deixo-a
naquela situação, após, Paula, sua mãe, também pede perdão por não ter
oferecido aquilo que seu filho merecia, durante toda a vida. Todavia, ainda
percebemos que o personagem principal reveste-se de um grande bloqueio
sentimental, pois enquanto Chiron passeia com um de seus capangas, o mesmo
pergunta para este sobre “as garotas” que seu amigo vem “pegando”, seu amigo,
movido por uma cultura machista, aponta as casas da mulheres que vem namorando,
porém Chiron parece um pouco desconfortável com tal situação. A seguir, o
protagonista recebe a ligação do seu velho amigo, Kevin, em tal momento
percebemos que Chiron ainda está em sua busca pelo autoconhecimento, pois o
contato com Kevin o deixa aflito e pensativo. A seguir, Chiron viaja para
Miami, ao encontro de Kevin, lá Kevin fica um surpreso com Chiron, seu estilo,
motivações e modo de viver, pois é totalmente diferente da pessoa que conhecerá
a anos atrás. Chiron fica um pouco obstinado a comer e beber com seu amigo.
Após
o jantar, Kevin convida Chiron para ir ao seu apartamento, lá temos que Kevin
se arrepende de ter participado do trote, que tanto prejudicou a vida de
Chiron, e que apesar de viver com pouca condição financeira, bem como a sua
vida não ocorreu como planejou, é feliz. Chiron, não consegue se conter, e
revela a seu amigo, que jamais se relacionou com outra pessoa, desde o dia em
que tiveram juntos a beira do mar, em sua adolescência. Após, Chiron relembra
da sua infância, olhando para o mar. Por fim, nos parece que Chiron, finalmente
desvenda todas as suas angustias e dúvidas, deflorando seus sentimentos e
ficando com a pessoa sempre amou.
Análise
Sob uma perspectiva técnica o filme nos
mostra uma grande exclusão social, que apesar dos Estados Unidos ser signatário
da Declaração Universal dos Direitos Humanos que tem como objetivo garantir uma
igualdade maior dentre a população, onde apesar que seus ditames se analisados
sob uma perspectiva crítica nos trazem diversas incongruências, falha
miseravelmente com aquilo que diz ser subscritor, transparecendo que o Estado
institui normas para se legitimar, mas que não saem de um plano abstrato. Com
isso, vários regulamentos são feridos de morte como por exemplo em seu artigo
sétimo que prega: “Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito
a igual proteção da lei. Todos têm direito a proteção igual contra qualquer
discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a
tal discriminação.”[5] Ora, é claro que o filme retrata um
realidade totalmente oposta ao que descreve os preceitos do referido tratado,
onde a discriminação está intimamente relacionado com o inconsciente da
população, algo tão arraigado que transcende a percepção do comportamento que
os mesmos tem uns com os outros.
Sob
uma perspectiva característica com ênfase aos aspectos de infância, família e
sexualidade, percebemos que o filme nos mostra um tipo incomum de família, qual
seja a família monoparental, porém há ainda um resquício de taxatividade na
obra cinematográfica, pois retrata um pouco, a incapacidade que a mulher tem de
enfrentar os desafios impostos, sempre mostrando a necessidade de ter-lhe um
homem para apoiá-la. O filme também nos mostra que a família biparentales e
adoptivas tendem a ser mais equilibradas e propícias a dar uma maior
estabilidade no relacionamento entre estas. Sua relação com a sexualidade é
intrínseca, pois o filme desenvolve-se na busca do autoconhecimento pelo
protagonista, ao perceber que não gosta das mesmas coisas que seus colegas, e que
é perseguido durante toda a vida por causa disso, onde no auge da sua vida
adulta o mesmo é forçado a ter uma postura estereotipada máscula, que não deixe
transparecer aquilo quer parecer. Tais posturas, que são apresentadas pelo
filme, nos deixam intrigados a saber, o por quê as pessoas não se empatizam com
o outro? Porque nos parece que o Estado na verdade só quer legitimar-se perante
o povo editando apenas “normas” que não saem do papel, e não correspondem com a
realidade que a sociedade realmente vive? Porque pensamentos discriminatórios
são praticados constantemente, porém não são percebidos, como se fosse sugado
toda a sensibilidade do outro?
Por fim, Moonlight nos parece um filme que quebra falências narrativas e estéticas, para tentar mostrar da maneira mais pragmática aquilo que descreve, pois é assim que o filme penetra nos mais íntimos sentimentos do espectador, perfazendo um grande sentimento de empatia pelo personagem principal. Moonlight é acima de tudo um filme que detêm uma grande sensibilidade e afetividade.
Referências:
[1]
Crespo, Irene. Crespo, Irene. «’Moonlight’,
o filme que pode evitar que ‘La La Land’ leve tudo no Oscar 2017». El País. Consultado em 5 de
março de 2019
[2] Keegan, Rebecca. «To give birth to ‘Moonlight,’ writer-director Barry
Jenkins dug deep into his past». Los
Angeles Times.
Consultado em 5 de março de 2019.
[3] France,
Lisa Respers. «Oscar
mistakes overshadowns historic moment for ‘Moonlight’». CNN. Consultado em 5 de
março de 2019.
[4] Rose, Steve. «Don’t let that Oscars blunder overshadow
Moonlight’s monumental achievement». The Guardian. Consultado em 5 de março de 2019
[5]
http://www.mp.go.gov.br/portalweb/hp/7/docs/declaracao_universal_dos_direitos_do_homem.pdf.
Consultado em 5 de março de 2019.